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A biblioteca dos nossos filhos

Por Ilan Brenman

Ilustrao: Fernando Makita

alguns anos, conversando com uma professora alemã que dava aulas particulares para alunos abastados de São Paulo, fiquei encafifado com um dos seus comentários. Ela relatou que achava estranho entrar em casas enormes, às vezes mansões, e não encontrar bibliotecas para os adultos e para as crianças. A professora me contou que era filha de operários e que na rua em que morou, numa pequena cidade alemã, todos tinham nas suas casas bibliotecas para os adultos e, pelo menos, uma estante para abraçar os livros infantis.

Pesquisas recentes dão conta de algo que é sabido intuitivamente muito tempo: famílias que têm mais livros em casa favorecem o desempenho escolar dos seus filhos. É evidente que somente ter o livro não ajuda, é preciso ressuscitá-lo. Ler em voz alta para seus filhos é construir pontes entre a escrita e o ouvido infantil, desejoso de fantasia.

Nos meus encontros com pais em escolas e no mundo, sempre ouvi alguns reclamando do preço alto dos livros, uma das justificativas para a não formação de uma pequena biblioteca familiar. Nessas ocasiões, sempre pergunto quanto dinheiro foi gasto no último celular que o filho de 9 anos ganhou, ou quanto pagou no último par de tênis com molas supersônicas, que às vezes imagino ser uma centopeia, tamanha quantidade de pares que possui.

A lista de gastos com os pimpolhos é extensa: figurinhas, brinquedos, roupas, eletrônicos variados etc. Mas quando vem um pedido extra da escola, ou da própria criança por um livro, às vezes é aquele rebuliço. O que está por trás desse processo é a importância que damos aos livros. O que eles têm a nos oferecer?

Lembro que, quando minhas filhas nasceram, tinha uma quantidade enorme de livros em casa. Desde bebês elas manuseavam e ouviam as vozes dos pais contando histórias através de centenas de páginas coloridas. Quando elas começaram a engatinhar, as duas pegavam com dificuldade os livros e davam marcha à para sentar nos nossos colos.

Elas descobriram desde cedo que o livro fazia com que os pais parassem o que estavam fazendo para dar-lhes atenção e que fazia os pais pronunciarem palavras diferentes das do cotidiano, palavras que contam histórias, com outro cheiro e ritmo, e que ainda fazia com que pais e filhos ficassem mais juntinhos. Ler uma história para seu filho é um ato de amor.

Um poeta disse que o livro é um brinquedo que nunca gasta, carregando dentro dele a memória dos nossos encontros secretos ou compartilhados. Quando nossos filhos crescerem eles se lembrarão de algumas das histórias de suas bibliotecas ou estantes, e junto das narrativas estarão grudados afetos inquebrantáveis ligados à nossa presença em suas vidas.

Queria concluir com uma ressalva: ser leitor não é salvação da lavoura, a chave perfeita para um mundo melhor. Aliás, muitas atrocidades foram também cometidas por sujeitos cultos e leitores. Porém, aquele que se torna um leitor competente, mais consciência tem dos seus atos; por conseguinte, mais responsável é por tudo que faz. Espero que nossos filhos leiam o mundo e decidam trilhar os melhores caminhos.

 

*Matéria publicada originalmente na Revista Crescer


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